CAPÍTULO IV

A arte da pergunta

A pergunta vem antes das moedas, e veio primeiro também na história. Nos ossos dos Shang o adivinho do rei não escrevia uma pergunta: gravava uma frase para pôr à prova — um antepassado é a causa da dor de dentes do rei — e muitas vezes a mesma frase também ao contrário. Se aquelas frases eram perguntas, os estudiosos ainda o discutem. Mas uma coisa era clara já então: o oráculo responde ao que se lhe leva, e levar-lhe uma frase vaga é receber uma fenda vaga.

Nas consultas que o Zuozhuan regista a pergunta não se lê: lê-se a matéria e lê-se o desfecho. A matéria é sempre uma coisa a fazer — uma batalha, um casamento, um filho acabado de nascer, uma revolta que se prepara — e a única frase que se parece com uma pergunta di-la um homem a um conselheiro, não ao oráculo: tenho uma coisa a empreender, como irá. O livro, então, interrogava-se sobre uma ação em dúvida: não sobre como é feito o mundo, mas sobre o que fazer nele.

O Grande Tratado diz que o nobre, quando está para agir, interroga o livro e faz a sua pergunta por palavras. Por palavras: é a primeira arte, e parece nada. Uma pergunta que fica na cabeça é um nó de coisas juntas — o medo, o desejo, a pressa — e o livro responde-lhes a todas juntas, isto é, a nenhuma. Escrevê-la desfaz o nó: vê-se o que se quer saber de verdade, e muitas vezes é menos do que se julgava. Aqui a pergunta escreve-se antes das moedas, numa frase inteira, e fica com a leitura que dela nasce: reencontra-la ao lado dela.

Aberta. O livro não diz sim e não diz não: dá uma figura, e uma figura tem seis linhas, duas naturezas, um movimento. Pedir-lhe um sim ou um não é perguntar a uma paisagem se é verdadeira ou falsa. Uma pergunta aberta — como, o quê, de onde — deixa à figura o espaço para dizer o que sabe dizer: a forma da situação, não o seu veredicto. E perguntar se fazer uma coisa ou outra é um sim ou um não disfarçado: a figura não escolhe entre duas portas, descreve a sala em que estás.

Tua. A pergunta é sobre as tuas mãos, não sobre as dos outros: sobre como estar numa coisa, sobre o que fazer, sobre o que deixar — nunca sobre o que fará outra pessoa. Não é uma regra de cortesia: é que o livro não vê os outros, vê a situação de onde tu estás, e uma pergunta sobre os outros pede-lhe que olhe por uma janela que não tem. E uma pergunta que não é tua dá uma resposta que se pode não ouvir, porque não há ninguém a quem caiba.

Não preditiva. O que acontecerá, se vai correr bem, quando: são as perguntas que o livro não está feito para suportar. Descreve uma configuração presente — para onde pende o que é — e não o futuro; quem lhe pede o futuro transforma-o num adivinho, e a si mesmo num espectador. No Zuozhuan já o escriba do marquês de Chen, consultado sobre uma criança, cobre a sua previsão de cautelas — talvez noutro estado, talvez entre os descendentes — e o marquês, escreve quem o estudou, parece perceber que o livro não é um instrumento desse género. Não o era em 672 a.C.; não o é hoje.

Concreta. Sobre o presente, não sobre um futuro remoto; sobre uma coisa, não sobre tudo. O sentido da vida, o amor em geral, o trabalho em geral são perguntas para um livro de filosofia, não para seis linhas: a figura precisa de algo em que tocar. Uma situação, as pessoas que estão dentro dela, o ponto em que te encontras: quanto mais perto da terra está a pergunta, mais terra tem a resposta debaixo dos pés. E não é preciso um tratado — uma frase inteira basta, e a página pede-ta inteira.

Muitas vezes a pergunta certa não é a primeira que vem. Chega-se ao oráculo com a que dói — vai deixar-me, vou conseguir — e o trabalho é voltar a entrar na mesma coisa por outro lado: qual é a minha parte no que acontece, qual é o primeiro passo, o que não estou a ver, o que guardar e o que largar, onde pôr as forças agora, o que conta de verdade para mim aqui, o que me ensina aquilo que temo, com que disposição estar nisto. São oito ângulos de uma rosa, e a pergunta continua a ser tua: muda só o ponto de onde a olhas. Aqui a página pode propor-te alguns modos de voltar a entrar — e ficar com a pergunta como está é uma escolha igual às outras.

O que não se pergunta, então. Não um sim ou um não; não o futuro; não os outros. E não se pergunta para ganhar uma discussão, nem para saber de alguém o que não te diz, nem para ver se o livro acerta: uma pergunta feita para pôr o oráculo à prova recebe uma figura como todas as outras, porque o livro descreve uma configuração presente, não quem o interroga — e quem o põe à prova não lhe levou nenhuma situação para descrever. A pergunta diz quem és enquanto a fazes. Por isso, antes de a escrever, vale a pena parar um instante: não para encontrar a frase perfeita, mas para sentir qual é a pergunta verdadeira debaixo daquela que faz mais barulho.

Escrita, a pergunta está feita: as moedas lançam-se por ela, e a figura que nasce fala-lhe. Não se muda diante da resposta — nem a pergunta, nem o destinatário. No Zuozhuan há quem, diante de um presságio desfavorável sobre o casamento que queria, decidiu que o presságio dizia respeito ao primeiro marido da mulher e não a ele, e casou: a pergunta era sua, e certa; foi a resposta que desviou. Se a resposta parece não ter que ver, quase sempre tem que ver com a pergunta verdadeira, a de baixo; e se a pergunta estava errada, o livro di-lo à sua maneira, descrevendo uma situação que não é a que julgavas ter. Três conselhos, pois, e são os que a página da pergunta tem à mão: aberta, concreta, tua. O resto fazem-no as moedas.

MARCADOR — O RESTO DO CAPÍTULO VEM DA OFICINA DE CONTEÚDOS.